Câmara Municipal de Lisboa
Departamento de Bibliotecas e Arquivos
Gabinete de Referência Cultural
Lisboa 24-25 de Junho de 2004
Uma pesquisa bibliográfica para a realização de um trabalho académico, poderá encontrar referências sobre a mobilidade da pessoa cega ao longo da nossa história.
Departamento de Bibliotecas e Arquivos
Gabinete de Referência Cultural
Lisboa 24-25 de Junho de 2004
Uma pesquisa bibliográfica para a realização de um trabalho académico, poderá encontrar referências sobre a mobilidade da pessoa cega ao longo da nossa história.
Eventualmente alguns dos desenhos toscos feitos há milhares de anos e encontrados nas pedras deste nosso Portugal poderão referenciar um cão conduzindo um cego, ou um cego com o seu bastão.
As pessoas cegas, durante séculos, só muito raramente usufruíram de educação clássica. Só no século IX, é que apareceram escolas que iniciam um currículo especial onde se incluía a leitura e escrita táctil, a afinação e o tocar piano, algumas artes e técnicas, mas onde a aprendizagem da autonomia nas suas deslocações, estava ausente do programa. A característica, nesta última área, era de que, por si, só poderia conhecer o mundo reduzido da sua área de residência e o que estava à sua volta. Se queria conhecer um mundo mais alargado, teria de recorrer ao auxílio de um guia.
A nível mundial o primeiro treino ou aprendizagem formal de orientação e mobilidade tem a sua origem na utilização do cão-guia, nos Estados Unidos da América através da "Seeing Eye", logo após a primeira Guerra Mundial.
Poderemos igualmente dizer que, ainda sem a característica estrutural, apareceu, nos fins do século dezanove, o chamado "treino físico". No entanto, todo este trabalho era no sentido de melhorar comportamentos centrados no próprio corpo da pessoa cega, mas nunca virado para a sua interacção com o mundo através das suas deslocações autónomas. Essas tinham um certo sentido de proibição.
Só após a segunda Guerra Mundial, com regresso dos militares cegos ao Hospital Militar de Valley Forge EUA), Richard Hoover, numa reunião em que se discutia o que fazer com estes soldados, em termos de reabilitação e de prioridades, disse: "A primeira coisa que eles devem aprender é como conhecer o espaço à sua volta".
Foi assim, que nos anos cinquenta, se iniciou o ensino do "andar a pé", a designação que precedeu a de Orientação e Mobilidade e que modificou a filosofia e a prática da quase impossibilidade de permitir que a pessoa cega se movimentasse autonomamente.
Richard Hoover faz parte de um grupo de três iniciadores deste processo revolucionário, iniciado em Valley Forge, que permitiu que actualmente, a população com deficiência visual se desloque por esse mundo fora, com muito mais facilidade, resultante de um melhor treino dos seus sentidos, da aprendizagem de uma nova técnica, da utilização de uma bengala mais leve, comprida e eficaz e de uma aprendizagem orientada para um melhor conhecimento das diferentes situações características deste mundo. As outras duas pessoas, são Warren Bledsoe e Russ Williams. Diz a história que sem estes três homens, provavelmente a Orientação e Mobilidade nunca teria chegado ao que é hoje (Dona Sauerburger) History of Orientation and Mobility
http://www.wayfinding.net/history.htm
Richard Hoover e Warren Bledsoe, vinham da Maryland School for the Blind, onde eram professores. Russ Williams tinha cegado no decorrer da Invasão da Normandia e contribuiu com as técnicas que na altura tinham aprendido e que eram as do treino dos sentidos nomeadamente, treino sonoro e táctil, as mudanças de superfície, as diferentes características espaciais, os pontos de referência a utilizar, etc. . Os três, com muita dificuldade, iniciaram um a nova era, com um ensino estruturado e onde a barreira mais difícil a ser ultrapassada foi o da utilização de uma bengala, já que ela estava mesmo proibida de ser usada (Bledsoe, C.W. 1987).
Bedsoe , ensinou a Suterko e a outros técnicos, as técnicas que aprendeu com Hoover. Williams ensinou as técnicas de desenvolvimento sensorial.
A principal característica desta aprendizagem e que ainda hoje é seguida, centra-se na característica que depois de referida uma determinada técnica, cada formando irá servir de guia e ensina a um outro que está de olhos vendados e que desta maneira irá executar a técnica aprendida. Para reforço deste tipo de aprendizagem o guia sistematicamente questiona o formando de olhos vendados "O que está a sentir?", "O que está a ouvir?" "A que distância se encontra da parede?", etc..
Williams, igualmente foi importante para os novos instrutores, pois que mostrou a sua grande capacidade técnica e ensinou como é que aprendeu a localizar um edifício, ou até um pequeno poste, através de vários processos incluindo a sombra sonora que estes faziam quando passava um carro, do outro lado do objecto, ou quando esperava o eco resultante dos seus passos ou palmas.
Em Portugal, por esta altura, criava-se a Fundação Sain (1957) e por haver necessidade de técnicos de reabilitação, veio a Portugal o prof. J. Albert Ansenjo, do "Rehabilitation Centers St. Louis Missouri", primeiro dando uma formação genérica para técnicos de reabilitação no decorrer dos anos de 61/62, onde esteve o professor Luís Reis, que em colaboração com a Prof. Margarida Vieira da Rocha investiram bastante na autonomia e deslocações dos reabilitandos. Mais tarde, com a abertura do Centro de Reabilitação de N. S. dos Anjos, e no decorrer duma formação mais intensiva, aparece o prof. José Joaquim António Rodrigues, que recebe formação já com com os conteúdos que incluíam as técnicas iniciadas pelo Dr. Richar Hoover, (técnica dos dois toques ou do pêndulo) que nos permite anotar ser este senhor o primeiro professor de orientação e mobilidade da nova e actual era. Posteriormente formou-se em Engenharia Geológica e vive no Brasil para onde foi há cerca de 40 anos.
Nesta mesma altura, surge o professor do 1º ciclo Ramalho e o fisioterapeuta Luís de Barros que também recebem formação dada por Albert Ansenjo. (Orlando Monteiro, comunicação pessoal, Janeiro 4, 2003)
Para a difusão dos novos modelos de intervenção junto da população com Deficiência Visual, tinha-se criado na Europa, em Paris, a AFOB (American Foundation for Overseas Blind) que em 1965 passa a ser dirigida pela Dra. Jeanne Kenmore. Tinha esta fundação como missão, prestar assistência técnica, realizar investigação nos domínios da cegueira e também distribuir publicações profissionais e material em braille. As boas relações desta instituição com os serviços de apoio à deficiência visual a funcionar nos Serviços de Proteção à Infância e Juventude do Instituto de Assistência aos Menores onde estava, na altura, a Dra. Ana Maria Bénard da Costa, permitiram, em 1968, realizar, em Paris, o primeiro curso de Orientação e Mobilidade, onde estiveram presentes os professores Ramalho e Luís de Barros. Em 1969, adquiriram esta mesma formação, num segundo curso, os professores Belo e Moura e Castro. No ano seguinte, 1970, coube-me a mim e à professora Magda Ribeiro, usufruir a mesma formação. Nestes cursos, apareciam formandos dos vários países da Europa e Médio Oriente.
Foi responsável pelo primeiro e segundo cursos o já referenciado Stanley Suterko. O responsável do terceiro curso foi um americano Bill Walkoviack, que tinha sido aluno no Boston College de Suterko. Igualmente foram professores nestes três cursos a sueca Anta Ryman professora na Totemboda School, na Suécia, e a australiana Wanda Williams, professora na Refnesskolen na Dinamarca. No último curso foi professor também, o espanhol Jesus Cabrera da ONCE de Espanha.
Possuíam estes cursos, cinco áreas específicas. A primeira referente aos aspectos físicos de orientação e mobilidade, aprendidas através da prática com os olhos vendados. A segunda relacionada com os aspectos específicos da população com deficiência visual. A terceira estudava as funções do corpo humano relacionada com a anatomia, fisiologia, cinesiologia e actividade física característica da pessoa cega. A quarta, abordava o estudo dos sentidos, especialmente os remanescentes. A quinta estudava os aspectos culturais e psicosociológicos relacionados com a deficiência.
Com o nosso início de trabalho intensivo e com a boa imagem que a população com deficiência visual passou a sentir que possuía e igualmente passou a dar a todos os que directa ou indirectamente observavam a sua mudança comportamental, verificou-se a necessidade de, a nível nacional, formar mais professores e técnicos. Nesta altura, a AFOB, tinha terminado a sua acção na Europa.
Assim, em Portugal, realizaram-se vários cursos com modelo similar ao recebido em Paris, ou seja com os mesmos conteúdos e metodologia, com cinco semanas de trabalho intensivo, num total de 175 horas e com critérios de admissão que delimitavam o curso para professores c/especialização na área da deficiência visual, ou professores de educação física. Estes critérios, num ou noutro curso, não foram totalmente seguidos.
Enumeram-se seguidamente os cursos em que estiveram envolvidos quer eu quer o Prof. Doutor José Alberto Moura e Castro e que estão referenciados até ao ano de 1988 (ver abaixo). Posteriormente realizaram-se cursos similares ou de menos duração, dos quais fomos tendo informação, mas cuja pesquisa não foi possível efectuar, excepto no ano 2000 nos Açores, que foi da minha responsabilidade.
- Entidades formadoras:
- CFAP (Centro de Formação e Aperfeiçoamento do Pessoal) Direcção Geral da Assistência
- CEEL e CEEP (Centros de Educação Especial de Lisboa e do Porto)
- DEE (Divisão do Ensino Especial) da DGEBS e DEE da DGES
- Entidades utilizadoras:
- Escolas (regular e especial), Centro de Reabilitação de N.S. dos Anjos, Oficinas da Areosa, Fundação Sain, Acapo
Em 1995 através de uma candidatura ao Programa Horizon/Feder, conseguiu a Escola Profissional Beira Aguieira de Mortágua enviar à Federação Francesa de Escolas de Cães-Guia, 2 educadores que fizeram uma formação de 3 anos. A mesma candidatura permitiu a aquisição do terreno bem como a construção das instalações e formação da restante equipa. A partir de 2000, terminado o projecto comunitário, constitui-se uma associação sem fins lucrativos a ABAADV – Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, que nesta altura, dirige a escola que já distribuiu gratuitamente cerca de 50 cães-guia que tem permitido às pessoas com deficiência visual, uma maior autonomia nas suas deslocações.
Lisboa, 25 de Junho de 2004
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